Tenho uma relação para lá de ambígua com o Natal. Pensa numa data complicada? Confesso que eu amava o Natal em família quando eu era criança. Eu tive muitos momentos felizes no Natal que guardo com carinho. Mas um dia, eu perdi minha irmã no dia 25/12 e o Natal se tornou uma data triste. Só 10 anos depois, quando meu filho nasceu, foi que isso realmente mudou. A família se uniu e tivemos momentos muito felizes nessa data. Depois eu me divorciei e o meu filho foi se tornando adolescente, as coisas mudaram novamente. Virou uma data para juntar a família e almoçar no dia 25. No dia 24, o meu filho passa o Natal com a mãe e fica um vazio, meio sem saber o que fazer.
Eu já escrevi aqui como eu não vejo a hora de dezembro acabar. Eu chamo o fenômeno de “dezembrite”. Começa com o caos da Black Friday, e aí vem os sintomas:
- Aquele cansaço acumulado do ano faz parecer que a força da gravidade aumentou significativamente.
- Vontade de fugir do calor e estar numa cachoeira deserta
- Alergia a trânsito e lugares cheios
- Um forte impulso de tomar todas e levar os monstrinhos para passear
- Aversão ao excesso de compromissos e confraternizações do trabalho, do grupo de tricô, dos amigos da fada do dente, etc e tal
- Um paladar afeito açúcar, gordura e carboidratos pronunciado e persistente
- Irritabilidade latente com gente chata, grudenta ou que começa a fazer discursos good vibes
- Uma angústia de fechar todas as metas, avaliações, projetos, e tirar o chefe, alunos, etc do nosso pé
- Aquela preguiça de comprar presentes, organizar festas, viagens, cozinhar alucinadamente e coisa e tal.
Nem vou entrar naquela vibe de pensar que não chegamos, nem metade dos planos que traçamos no começo do ano. Eu sei que não sou a pessoa mais animada do mundo nessa época do ano. Em 2008 eu escrevi o “Kit Felicidades“, com preguiça de desejar boas festas a um zilhão de desconhecidos todos os anos. Hoje deve ter um botão no LinkedIn automatizando isso. Mas é um período delicado para muita gente. Quando trabalhei no Metrô-SP, descobri que os condutores dos trens ficam super estressados nessa época. É quando temos o maior índice de suicídio do ano. Essa convenção coletiva de que todos devem passar o dia com suas famílias gera muito sofrimento para aqueles que estão em situação de vulnerabilidade, sem família, solitários, deprimidos.
Tem, por outro lado, as famílias que se reúnem e precisam conviver com parentes e agregados insuportáveis. Zilhões de piadas, esquetes e memes sobre isso. Não preciso entrar nessa seara também, ainda mais lembrando que em 2026 as eleições vão ser uma bomba. O lance é que, ao acompanhar as notícias dos últimos tempos, parece que o universo não colabora. Cara, tentar processar os Garotos Podres por uma música de 1985, com uma crítica que hoje é até batida contra a desigualdade social que o Natal representa, não é apenas bizarro. Não é mais só em Santa Catarina que a onda fascista começa a parecer um tsunami. Enquanto isso, é nessa época que deputados e vereadores adoram aumentar o próprio salário. Pô, mas esse ano eles estão caprichando. Vou me abster de citar as notícias, afinal, como eu disse, já é uma época suscetível demais ao suicídio. Não é minha intenção contribuir para a depressão e para as estatísticas.
Eu amei a explicação que o Pastor João Berlofa fez sobre a questão da data de nascimento de Jesus. Recomendo. E parece que sobra pouca coisa para se comemorar, não é mesmo? Acho que um ponto importante é o fechamento de ciclos. Já escrevi aqui sobre a sensação maravilhosa que é a chegada de janeiro. Esse bálsamo na forma de recomeço. E tem uma coisa, que mesmo com toda a canseira do final do ano que eu amo em dezembro. Os amigos. Aquelas pessoas que realmente fazem diferença na sua vida. Não sou fã de grandes e espetaculares celebrações, mas gosto do encontro. De poder ter uma proza arrastada, um bom abraço, um tempo para gastar com quem realmente importa.
Eu tenho toda uma alergia a gente good vibes que cocria a riqueza, que vibra e celebra a frequência da meritocracia, sem passar por um chá de revelação de classe social. Ao mesmo tempo, sou muito grato. Adoro puxar papo, mandar um panetone ou uma lembrança para amigos queridos. Essa é a minha forma de agradecer ao universo. Ajudar as pessoas, fazer gentilezas, dar abraços apertados e às vezes mandar um meme ou uma mensagem.
Hoje estou aqui no dia 24, indo passar o Natal com a minha mãe, encontrando amigos e lembrando da minha irmã que se foi há tempos. E deu aquela vontade de escrever de novo, de cuidar um pouco do blog aqui, que logo estará de cara nova. Afinal, escrever é uma das coisas que eu mais gosto de fazer. Eu não deveria passar tanto tempo sem batucar no teclado por aqui. Essa é a minha promessa para 2026: escrever mais e estar mais próximo das pessoas que fazem a diferença na minha vida e no mundo.
Kit felicidades para todos!
