Caminhadas

Este texto foi um E-mail escrito em 21/06/2001. Faz parte de alguns textos que escrevi há tempos atrás que eu pensei em colocar, mas como tive preguiça na época, estou postando só agora.

Este final de semana fui viajar. Natureza, caminhadas, ar puro das montanhas, cachoeiras e coisa e tal. A princípio fiquei apreensivo em aceitar o convite da família, queria ficar junto dos amigos e beber um pouco com eles. Bem, mas lá estava eu. O hotel era uma pousada muito simpática onde só existiam chalés com casais apaixonados. Nós éramos a exceção. Depois de passar um dia com os primos fui para uma caminhada ao pico das prateleiras, a 2600 e tralalá metros de altura. Um grupo saiu do hotel às 9h da manhã. Longo percurso em uma Kombi branca que contornava vagarosamente as curvas montanha acima. Além do motorista, era óbvio que eu era o único solteiro. Chegando lá no Parque nacional de Itatiaia, vários grupos iam se misturando, a maioria ia ou para o Pico das Agulhas Negras ou ia para as Prateleiras. Logo me enturmei e conheci um grupo de professoras, a maioria de geografia. Bom papo, bom astral. O dia estava lindo.

A trilha que inicialmente era uma picada aberta e bem sinalizada foi se alterando e iam surgindo trechos mais difíceis com fortes inclinações e pedras. Para mim, metido como sempre e acostumado a pular de uma praia para outra caminhando pelas pedras, não foi difícil. Vez ou outra tirei a mochila das costas para pegar a máquina e sapecar algumas fotos. Chegamos todos a uma pedra enorme onde um grande grupo se amontoava perto do cume. Dali poderia-se optar entre subir até o pico das Prateleiras ou uma caminhada mais suave até alguns lugares menos emocionantes. Resolvi ir até o pico com um pequeno grupo (sempre acompanhados de um guia local). A trilha era realmente desafiadora. O grupo demorava a progredir pois muitos precisavam de ajuda do guia para transpor alguns trechos mais difíceis. As pedras de montanha agarravam bem nos pés, más judiaram das mãos. Bem perto do pico, já quase na altitude máxima, o vento muito frio e os trechos muito íngremes que escalamos andando, intercalados de fendas profundas nas pedras davam arrepios consideráveis. Fui teimoso, fui até o fim. Deu medo de voltar, afinal as descidas são sempre mais perigosas. O tonto aqui tinha ido de bermuda e camiseta e eu estava tremendo inteiro. Já era tarde e um grupo de 7 pessoas iria descer um trecho do pico de rapel. Insisti com o guia e ele me deixou fazer o tal do rapel também. O fim do dia estava próximo e tivemos que esperar outro grupo descer primeiro. No nosso grupo, das oito pessoas que iriam descer pela corda, apenas um já tinha feito isso na vida. Eu fui o terceiro. Depois da quarta pessoa, o sol já havia se posto. O frio aumentou muito e ventava bastante. Ficamos com medo lá embaixo, temendo por aqueles que ainda iriam descer. No final todos desceram, exceto o guia que chegou instantes depois e nos conduziu no escuro (com uma lanterna na testa) até a Kombi. Não foi moleza passar deitado por entre as pedras e tatear a sua frente para saber se existiria um lugar onde apoiar o pé. Chegamos todos bem, quase meia-noite cada um no seu hotel.

No dia seguinte fui para um passeio com a família para a parte baixa do parque, para ver algumas cachoeiras e coisas do tipo. Depois de entrar no parque com o carro, descemos a pé por uma trilha de uns 400m até a primeira cachoeira do roteiro. Saquei o tripé e a máquina e tirei umas fotos. Algumas pedras antes de eu guardar o equipamento eu torci o pé e quase deixei todo o equipamento ir rio abaixo. Consegui salvar a máquina, mas meu tornozelo sofreu uma torção. Depois de subir a trilha novamente, a família já estava exausta e meu tornozelo todo inchado. Fiquei triste, pois não havia mais condições de seguir pelo passeio e eu queria conhecer as outras cachoeiras da região.

Fui questionado sobre a graça de se ver várias cachoeiras, não são todas parecidas? Aí fiquei todo enrolado e me fazendo mil questionamentos. Afinal, porque toda essa sede por trilhas, montanhas, cachoeiras e aventuras? Difícil querer explicar as razões de cada um para os seus atos. Certamente, se eu estivesse com um bom grupo de amigos, eu não teria pressa em sair da cachoeira, ficaria por ali por um bom tempo papeando ao som do rio. Como fotógrafo amador, eu realmente queria fotografar o maior número de lugares bonitos que me fosse possível. Se bem que às vezes compensa mais passar mais tempo em apenas um lugar bom para sentir melhor a paisagem e tirar fotos mais criativas.

Mas como explicar para a família, a sensação de medo e de prazer que era estar no escuro no meio do nada. Não sei como explicar, mas parece que naquele momento, junto a pessoas que eu acabei de conhecer, laços de fraternidade se recriavam. As pessoas colocadas mais próximas de coisas essenciais se mostravam mais nuas. Quando espostos a fome, ao frio, ao cansaço, a possibilidade de não achar o caminho de casa e tudo mais, parece que as pessoas se mostram diferentes ao mundo. Longe da segurança da família, do emprego e da civilização, as pessoas se mostram frágeis como são realmente. A maioria do grupo já se conhecia, com exceção do guia, eu e mais uma pessoa. Vi a preocupação do grupo com os colegas que ainda estavam lá em cima do pico naquele frio de quebrar ossos. O jeito de andar na trilha de mãos dadas e avisar o colega de trás para cada obstáculo que ia encontrando no caminho. Depois, o pastel frito na hora feito por uma amiga do guia que trabalha num bar na estrada e ficou esperando pelo grupo até tarde. O pastel engordurado era naquele momento muito mais gostoso do que a maravilhosa comida do hotel que me aguardava.

Como explicar para a família que o gostoso do passeio foi justamente o que deu errado. Que apesar de ver o pôr-do-sol pendurado numa corda de 50m a 2600m de altura o legal foi ter passado pelo desafio do escuro, do cansaço e do frio. Afinal, pra que uma pessoa sobe até o Pão de Açúcar por uma longa trilha se pode pegar o bondinho? É certo que cada um pode ter seus motivos particulares, mas certamente a resposta não está apenas no cume, no ponto assinalado num mapa, onde se pretende chegar. Deve haver um currículo oculto nas relações entre as pessoas e a paisagem que se inscreve no caminho de quem opta por uma travessia mais difícil que um passeio de helicóptero. Além disso, a aventura não se resume apenas no momento da adrenalina de quem salta de pára-quedas, está em todo o processo. Há muita história para ser lembrada além da hora H.

Acho que de tempos em tempos devemos passar por situações semelhantes, devemos testar um pouco o limite do nosso corpo. Não para ganhar uma noção ecológica, respirar ar puro, estar em contato com a natureza ou melhorar nosso condicionamento físico. Mas para se sentir humano apenas. Sentir que ao fim e ao cabo são ainda as necessidades básicas de sobrevivência que lhe guiarão em última instancia. E nestes momentos, toda a ética, fraternidade, solidariedade, cidadania e coisas do tipo se mostram na prática, não em discursos. Elas se mostram nas ações de cada um, num momento, por menor que seja, de dificuldade para um grupo de pessoas desafiadas pela vida.
Foi interessante conversar com o guia. Ele se mostrou muito satisfeito com a profissão. Alem do preparo físico invejável, ele realmente não demonstrou estar chateado com o fato de estar trabalhando até tarde da noite para acordar na madrugada do dia seguinte. É sempre bom ver pessoas que acreditam e gostam do que fazem na vida. No caso do guia, parecia que aquilo realmente fazia sentido na sua vida, como me faz sentido estar numa sala de aula. Certamente este clima de satisfação, serviu para que o grupo não desanimasse e prosseguisse com tranqüilidade.

Longe de lições de moral de fábulas e contos, ficou claro que é possível vencer difíceis travessias, mas que a qualquer momento podemos cair e em certas situações teremos de voltar por mais simples que seja o caminho. No auge das incertezas ficam a fé e o bom senso lado a lado tentando equilibrar razão e emoção. Não tenho muita idéia do que isso possa realmente querer dizer, mas convido a todos para a próxima aventura!

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